Aproximadamente 77% da soja produzida no mundo é destinada à alimentação animal — gado, aves, suínos — e não à alimentação humana direta. É o que estabelecem os dados da FAO e a meta-análise de Poore & Nemecek publicada na Science em 2018, que continua a ser, até hoje, o estudo de referência mundial sobre a pegada ambiental da alimentação. Como engenheiro agrónomo e fundador da Biovie desde 2007, proponho que leia estes números calmamente — e descubra por que as algas marinhas e as microalgas como a spirulina oferecem, neste campo, uma alternativa proteica de eficácia notável.
Aqui está um artigo chave para mim, porque o assunto é frequentemente tratado com mais paixão do que rigor. Vamos tentar, juntos, fazer o contrário.
Quem realmente consome a soja mundial?
Aqui está o dado que muda tudo, e que repito frequentemente durante as nossas conferências: um europeu consome em média cerca de 61 kg de soja por ano. Deste total, 57 kg são consumidos de forma indireta, incorporados na carne, nos ovos e nos produtos lácteos. Os 4 kg restantes correspondem ao uso alimentar direto: tofu, tempeh, miso, bebidas vegetais, edamame (WWF / Greenpeace, Eating the Planet, 2018).
Este número inverte a imagem habitual do "grande consumidor de soja". A grande maioria da soja agrícola transita pela cadeia de produção animal antes de chegar a um prato. E a nível mundial, a FAO estima que 70 a 80% da produção é transformada em tortas e farinhas para a alimentação animal.
O óleo de soja — que se encontra em muitos produtos ultraprocessados — é na realidade um co-produto desta extração industrial, valorizado secundariamente porque é necessário rentabilizar a cadeia.

O que a cadeia trófica faz perder ao seu prato?
Há um conceito fundamental em agronomia e biologia: a cadeia trófica. Em cada elo, a energia se dissipa. Um animal de criação deve ingerir vários quilos de proteínas vegetais para restituir um único quilo de proteínas animais. Esta realidade biológica é incontornável — não depende das práticas de criação, está inscrita na fisiologia animal.
Os dados publicados por van Zanten et al. (2016, Animal Feed Science and Technology) quantificam assim: para produzir 100 g de proteínas de frango, é necessário mobilizar cerca de 109 g de proteínas de soja na alimentação animal. Para 100 g de proteínas de porco: cerca de 51 g de soja. Para o gado em criação intensiva, as proporções são geralmente ainda menos favoráveis.
Concretamente, isso significa que uma parte significativa dos nutrientes contidos na soja — proteínas, lípidos, micronutrientes — é dissipada sob a forma de calor corporal, estruturas não comestíveis e resíduos metabólicos antes mesmo que o alimento chegue ao seu prato.
Esta ineficiência não é uma crítica ideológica: é uma restrição biológica com consequências diretas e mensuráveis sobre as superfícies agrícolas necessárias para alimentar uma população.
Desmatamento e soja: quem é realmente responsável?
É a pergunta que mais me fazem durante as nossas formações sobre alimentação viva. "Mas os veganos não contribuem também para o desmatamento através do seu consumo de soja?"
A resposta está nos fluxos comerciais. A soja produzida no Brasil — maior produtor mundial, com uma concentração significativa na Amazônia e no Cerrado — é exportada em cerca de 80% sob a forma de tortas e óleo destinados à alimentação animal, principalmente para a China, União Europeia e Sudeste Asiático (USDA, Foreign Agricultural Service, 2023; Mighty Earth Report, 2023).
A soja certificada não-OGM destinada à alimentação humana direta (tofu orgânico, bebidas vegetais, tempeh) é produzida sob cadeias específicas, em grande parte na Europa e na América do Norte, com especificações rigorosas e áreas dedicadas que representam uma fração menor da produção mundial.
Essa nuance não significa que toda a cultura de soja seja isenta de impacto. Mas permite colocar as responsabilidades onde os volumes o justificam.
Poore & Nemecek (2018) modelaram o que mudaria uma transição alimentar mundial para o vegetal: seus resultados indicam uma possível redução das áreas agrícolas mundiais da ordem de 75% — ou seja, uma área equivalente à América do Norte, China, União Europeia e Austrália juntas — que poderia ser devolvida aos ecossistemas naturais.
É um dado científico publicado em uma revista com revisão por pares, não uma posição ideológica.
As algas, uma alternativa proteica sem desmatamento
E é aí que nosso trabalho na Biovie faz todo o sentido agronômico.
Francamente, se eu tivesse que resumir em uma frase por que as algas me entusiasmam há vinte anos, seria esta: elas produzem uma densidade nutricional excepcional sem mobilizar um único hectare de terra agrícola. Elas crescem onde nada mais cresce — no mar, em tanques, em fotobiorreatores — com uma eficiência que as culturas terrestres, incluindo a soja, não podem igualar.
Espirulina vs soja: o que dizem os números proteicos?
Aqui estão alguns dados que merecem ser colocados lado a lado.
- Espirulina (Arthrospira platensis) — 60 a 70% de proteínas em peso seco, cultivada em tanques ou fotobiorreatores, nenhuma área agrícola necessária, não-OGM.
- Chlorella (Chlorella vulgaris) — 50 a 58% de proteínas em peso seco, cultivada em tanques, nenhuma área agrícola necessária, não-OGM.
- Soja para alimentação humana (cadeia não-OGM) — 36 a 40% de proteínas em peso seco, cerca de 2.500 m² por tonelada de proteínas produzidas, não-OGM.
- Soja para alimentação animal (cadeia OGM) — 36 a 40% de proteínas em peso seco, cerca de 2.500 m² por tonelada de proteínas produzidas, OGM em 77% dos casos a nível mundial.
- Bovino de criação intensiva — cerca de 26% de proteínas em peso fresco, mas ~160.000 m² por tonelada de proteínas produzidas, com consumo indireto de soja OGM via alimentação animal.
Fontes: Becker, 2007 (Biotechnology Advances); Poore & Nemecek, 2018 (Science); Spolaore et al., 2006 (Journal of Bioscience and Bioengineering).
A espirulina contém entre 60 e 70% de proteínas em peso seco — quase o dobro da soja. Seu perfil de aminoácidos é completo e comparável ao do ovo, segundo análises da OMS. E em área equivalente, ela pode produzir 10 a 20 vezes mais proteínas por ano do que a soja (Spolaore et al., 2006). Essa eficiência se deve ao seu ciclo de crescimento em meio aquático, à sua capacidade de usar diretamente a radiação solar e à sua notável velocidade de multiplicação.
A chlorella (Chlorella vulgaris) apresenta desempenhos semelhantes em termos de teor proteico, com a vantagem de uma concentração significativa em clorofila, ferro e vitaminas do grupo B. E a dulse, alga marinha vermelha, contém entre 20 e 35% de proteínas em peso seco — o que a faz ser considerada como uma proteína equivalente à soja, com uma área de produção infinitamente menor.
As algas marinhas: nori, wakamé, kombu, dulse
As algas marinhas têm uma história nutricional muito mais antiga do que o atual debate sobre a soja. As populações costeiras japonesas, coreanas, bretãs e irlandesas as consomem há séculos — não como um superalimento de nicho, mas como um componente comum da alimentação diária.
O wakamé (Undaria pinnatifida), o nori (Porphyra spp.), o kombu (Laminaria japonica) e a dulse (Palmaria palmata) fornecem polissacarídeos específicos — fucoidano, alginatos, carrageninas — que são objeto de crescente interesse científico, além de seu rico perfil mineral (iodo, cálcio, magnésio, ferro).
E nenhum desses alimentos necessita de um único metro quadrado de terra agrícola. A algocultura marinha pode até contribuir para melhorar a qualidade dos ecossistemas costeiros ao filtrar o excesso de nutrientes (Chopin et al., 2001, Reviews in Fisheries Science).
No nosso livro Algues au quotidien (Gallimard, 2024) — Melhor livro de culinária do mundo nos Gourmand Cookbook Awards 2025 — Aurélie e eu reunimos mais de 80 receitas acessíveis e fichas nutricionais precisas para integrar essas algas no dia a dia, sem experiência prévia.
Como integrar as algas na prática para reduzir a sua pegada de soja?
Não pretendo que a spirulina vá "substituir" a soja amanhã. A alimentação viva, como a praticamos há anos na Biovie, é antes de tudo uma questão de transição progressiva para uma alimentação com menor pegada ambiental — não uma revolução de um dia para o outro. Cada um avança ao seu ritmo, de acordo com suas restrições e gostos.
Mas alguns gestos concretos permitem integrar essa lógica no dia a dia:
- 3 a 5 g de spirulina por dia (uma pequena colher de chá rasa) em um smoothie, um suco de vegetais frescos ou um molho para salada. Nesta dosagem, o sabor é muito discreto e o aporte de proteínas, ferro e vitaminas do grupo B é significativo.
- Wakamé desidratado em flocos: 5 g em uma salada composta, um caldo ou massas. Basta reidratá-lo por 5 minutos em água morna. É a maneira mais simples de integrar as algas marinhas no dia a dia.
- Nori em folhas ou em flocos: em torradas, em rolinhos primavera caseiros, polvilhado sobre uma sopa. Com Aurélie, é a alga que mais usamos na culinária do dia a dia — seu umami natural muitas vezes substitui parte do sal.
- Diversificar as fontes de proteínas vegetais diretas (leguminosas, sementes germinadas, oleaginosas) reduz mecanicamente a dependência da produção animal — e, portanto, indiretamente, a pressão sobre as culturas de soja destinadas ao gado.
Em resumo, a ideia não é mudar tudo de uma vez. É entender as dinâmicas em jogo — e depois agir progressivamente, ao seu próprio ritmo, com os alimentos que correspondem ao seu estilo de vida.
Descubra a nossa gama completa de algas bio — spirulina, chlorella, wakamé, nori, dulse, kombu — certificadas pela Ecocert na maioria, selecionadas após visita aos nossos produtores.
FAQ — Soja, pecuária, desmatamento e algas
Por que se diz que a pecuária consome mais soja do que os veganos?
Porque os dados globais da FAO confirmam: entre 70 e 77% da produção mundial de soja é transformada em farinhas e farelos para alimentação animal (gado, aves, suínos). A alimentação humana direta — tofu, leite vegetal, tempeh — representa apenas uma fração menor dessa produção, muitas vezes proveniente de cadeias não-OGM separadas. Um europeu consome em média 57 kg de soja por ano de forma indireta através de produtos animais, contra apenas 4 kg em uso direto (WWF, Eating the Planet, 2018).
Qual é a diferença entre espirulina e soja em termos de proteínas?
A espirulina (Arthrospira platensis) contém entre 60 e 70% de proteínas em peso seco, contra 36 a 40% para a soja. Seu perfil de aminoácidos é completo, com todos os aminoácidos essenciais em proporções próximas às recomendadas pela OMS. Em superfície de produção equivalente, a espirulina gera 10 a 20 vezes mais proteínas por ano do que a soja, pois é cultivada em tanques aquáticos e não necessita de terra agrícola (Spolaore et al., 2006; Becker, 2007).
As algas podem realmente substituir as proteínas animais?
Elas podem contribuir para diversificar as fontes de proteínas vegetais de maneira eficaz e sustentável. A espirulina e a chlorella fornecem proteínas completas com alta densidade nutricional. As algas marinhas (nori, wakame, dulse) complementam com minerais (iodo, cálcio, ferro) e polissacarídeos específicos ausentes nas proteínas terrestres. Não se trata de uma "substituição" única, mas de uma diversificação que reduz a dependência das produções animais, e assim indiretamente da cultura industrial do soja.
Como integrar a espirulina na alimentação sem sentir o gosto?
Em baixa dose (3 g, ou seja, uma colher de chá rasa), a espirulina em pó é praticamente sem gosto em um smoothie doce ou suco de laranja. Também pode ser misturada em um molho vinagrete à base de limão e tamari, ou incorporada em uma massa de panqueca vegetal. O segredo é não expô-la ao calor (acima de 40 °C, algumas vitaminas se degradam) e associá-la a sabores que equilibram seu leve toque marinho.
O soja orgânico também é responsável pelo desmatamento na Amazônia?
Não, de maneira geral. O soja brasileiro que alimenta o desmatamento amazônico e a destruição do Cerrado é majoritariamente soja OGM cultivada para exportação para os mercados de alimentação animal (China, Europa, Sudeste Asiático). O soja orgânico não-OGM destinado à alimentação humana direta provém em grande maioria da Europa (França, Áustria, Itália) e da América do Norte, em cadeias rastreáveis sem ligação com o desmatamento tropical. As certificações AB e não-OGM exigem cadernos de encargos que excluem essas origens problemáticas.
Na prática — síntese e recursos
Os dados permitem afirmar o seguinte, com uma boa base científica:
- 77% do soja mundial é destinado à alimentação animal, não à alimentação humana direta (FAO, 2023).
- Um europeu consome em média 57 kg de soja indiretamente através de produtos animais, contra 4 kg em uso direto (WWF, 2018).
- A cadeia trófica implica uma perda de eficiência proteica substancial: ~109 g de soja para produzir 100 g de proteínas de frango (van Zanten et al., 2016).
- Uma transição para o vegetal permitiria reduzir as superfícies agrícolas mundiais em ~75% (Poore & Nemecek, 2018 — meta-análise de 38.700 explorações em 119 países).
- A espirulina contém 60–70% de proteínas em peso seco e gera 10 a 20 vezes mais proteínas por superfície do que o soja, sem mobilizar terras agrícolas (Spolaore et al., 2006; Becker, 2007).
Pronto, esta lista não é, claro, exaustiva. Mas espero que forneça as bases para pensar na sua alimentação com um pouco mais de perspectiva — e um pouco menos de emoção.
Referências
- Poore, J., & Nemecek, T. (2018). "Reducing food's environmental impacts through producers and consumers". Science, 360(6392), 987–992. (meta-análise, 38.700 explorações, 119 países)
- Becker, E.W. (2007). "Micro-algae as a source of protein". Biotechnology Advances, 25(2), 207–210. (revisão de literatura)
- Spolaore, P., Joannis-Cassan, C., Duran, E., & Isambert, A. (2006). "Commercial applications of microalgae". Journal of Bioscience and Bioengineering, 101(2), 87–96. (revisão de literatura)
- van Zanten, H.H.E., Bikker, P., Meerburg, B.G., & De Boer, I.J.M. (2016). "Attributional versus consequential life cycle assessment and feed optimization". Animal Feed Science and Technology, 218, 133–146. (estudo de ciclo de vida)
- Habib, M.A.B., Parvin, M., Huntington, T.C., & Hasan, M.R. (2008). "A review on culture, production and use of Spirulina as food for humans and feeds for domestic animals and fish". FAO Fisheries and Aquaculture Technical Paper n° 476. (relatório FAO)
- WWF / Greenpeace. (2018). Eating the Planet? How we can feed everyone well within planetary boundaries. Bruxelas. (relatório institucional)
- Springmann, M., Clark, M., Mason-D'Croz, D., et al. (2018). "Options for keeping the food system within environmental limits". Nature, 562, 519–525. (modelagem sistêmica)
- Chopin, T., Buschmann, A.H., Halling, C., et al. (2001). "Integrating seaweeds into marine aquaculture systems: a key toward sustainability". Journal of Phycology, 37(6), 975–986. (estudo sobre algocultura marinha)
Atualização: Junho de 2026. Artigo validado por Éric Viard, fundador da Biovie e engenheiro ISTOM, coautor de « Algues au quotidien » (Gallimard, 2024) — Melhor livro de culinária do mundo, Gourmand Cookbook Awards 2025, e Melhor livro de culinária da França, Académie Nationale de Cuisine 2025.
Aviso: As informações apresentadas neste artigo são fornecidas apenas para fins informativos e não constituem aconselhamento médico. Consulte um profissional de saúde qualificado antes de fazer qualquer alteração na sua dieta ou suplementação. No contexto de uma alimentação variada e equilibrada e de um estilo de vida saudável.







